• Dra Patrícia Savoi

Fome X Obesidade: Medicina Humanitária


No meu caminho ao trabalho por muitos anos, sempre me chocava com famílias e famílias vivendo nas pontes, à beira da Marginal Pinheiros, sem as mínimas condições de saúde e comida. E pode parecer besteira, mas por diversas vezes, lágrimas escorriam pelo meu rosto. Pela sensação de impotência, pelo sentimento de não poder fazer nada. Pensava em descer do carro, oferecer ajuda... mas que ajuda? O que eu poderia fazer? E seguia meu caminho... dia após dia. Eu não podia fechar os olhos (para não causar um acidente), mas com os anos aquilo parecia o “normal”. Como? Não sei explicar, eu me incomodava, mas parecia que algo me dizia ”Patrícia, você não pode fazer nada”.

Ao iniciar um curso sobre Ajuda Humanitária com a Volunteers Vacation, me pego nas aulas com os professores Carolina Freire e Alexandre Addor discutindo os números de IDH –Índice de Desenvolvimento humano; lembram disso? Aprendemos na escola e deixamos de lado ou melhor, nem todos, mas na faculdade de Medicina e na prática, acreditava que isso ficava bem longe da minha rotina. Será? Pergunto hoje; CLARO QUE NÃO. Isso ESTÁ na minha rotina, todos os dias. Como diz o SUS (Sistema único de Saúde): a saúde é um direito de TODOS e dever do ESTADO. Atualmente, atendo pela plataforma de atendimento voluntário SAS 4X4, pacientes de estados diferentes, Norte ao Sul do país. Com a telemedicina, entramos dentro da casa deles, isso mesmo... e estamos frente a frente com as desigualdades sociais- que só para saberem, vai muito além da desigualdade econômica, tá? Todos aqueles IDH’s ali na minha frente. Não preciso nem dizer que chegamos a discutir situações como a Síria e o Iêmen (o último no IDH)e que meus dias tem sido cheios de inconformismo e inquietude.

Aí trago alguns de meus pensamentos...

Milhões de pessoas passam fome no mundo, essa frase não te impressiona mais certo?

- Se eu te disser que mais de 135 MILHÕES de pessoas apresentam o que hoje é chamado de insegurança alimentar, um termo novo, você se impressionaria? Talvez não, pois pode pensar que mais da metade está na África, longe de você. ( A insegurança alimentar refere-se à falta de acesso seguro a quantidades de alimentos seguros e nutritivos para o crescimento humano normal e desenvolvimento e uma vida ativa e saudável)

-Se eu te disser que 17 milhões de crianças, abaixo de 5 anos, encontram-se desnutridas, você se impressionaria?

-Se eu te disser que mais de 815 milhões de pessoas passam fome no mundo, talvez agora te impressione. (Dados da FAO) Ou ainda não?

Mas, sabe uma das piores coisas para mim? É saber que “nenhuma praga é tão letal e, ao mesmo, tempo, tão evitável quanto a fome” (M.Caparrós)

A agricultura poderia alimentar sem dificuldades o número significativo de mais de 12 bilhões de seres humanos (o dobro, isso mesmo, 2 x a população atual do mundo). Lendo esse livro chocante, intenso e denso “A FOME”, do autor Martín Caparróz, me deparei com mais uma frase que me apertou o coração: 25 mil pessoas morrem por dia por motivos relacionados a fome.

E se pararmos para pensar não vemos esses tipos de notícias sendo divulgadas, porque “não vende” diria o autor do livre previamente citado; e sabe por quê? Por isso não “toca” mais as pessoas. Pois, a grande maioria já se tornou indiferente a esse cenário.

Tem pessoas mais dedicadas a encontrar soluções tecnológicas para automatizar empresas, pisar na Lua, ter carros mais rápidos, entre outros; mas não a encontrar uma solução para a fome.

Agora, te trago os dados do outro lado da história desse texto, a obesidade. Segunda Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 2 bilhões de pessoas no mundo estão obesas ou sobrepeso. Você vive vendo esses dados nas mídias digitais e fica chocado (a) com eles né? A Obesidade mata também; mais de 4 milhões de mortes no mundo por ano. Em 2019 foi publicado que em 2018 existiam 830 milhões de Obesos no mundo e que por isso, eles teriam ultrapassado o número de pessoas que passam fome no mundo. Aí você fica indignado com esse número e chega a pensar: nossa que número absurdo; mas, é obeso porque quer.

Sou médica de formação com título de especialidade em Nutrologia: a ciência que estuda a relação dos alimentos e nutrientes com a nossa saúde e doenças. Ai eu digo: sabe o que a fome e a obesidade têm em comum: a falta da saúde, do cuidado, do acolhimento, a falta da humanidade; e a MORTE.

Sou médica e mãe, ao ver a situação de miséria que algumas crianças vivem isso me corta o coração; mas sabia que ao ver crianças obesas tomando Coca Cola aos 02 anos (assistam “Muito além do peso”- um documentário nacional) ou comendo fast food até não poder mais também me dói?!

Descobri aos 36 anos de idade, que acima de tudo sou ser humano e não consigo ser indiferente a isso que vivemos. FOME “não vende”, mas OBESIDADE vende e muito; no entanto, para mim ; não importa. Não consigo ser indiferente a nenhum dos números divulgados aqui.

Acredite, todos nós podemos fazer a diferença, não se limite ao pensar que nada do que você fizer vai mudar; pois isso é uma crença limitante e são crenças como essa que não mudam o mundo. A minha frase da vida é “Seja a mudança que você quer ver no mundo” de ninguém mais de Gandhi. Nunca essa frase fez tanto sentido em minha vida.

Não importa sua profissão, seja HUMANO, não seja indiferente.

Muito obrigada por ler meu desabafo.

Dra Patrícia Savoi

Médica Nutróloga crm 140483 / RQE 40.206

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo